quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Holocausto Brasileiro

Estava lendo essa reportagem A vida no "pior hospital psiquiátrico do mundo" da BBC. Me deu o mesmo mal-estar que durante toda a leitura do livro "Holocausto Brasileiro" me deu. Essa é a minha última postarem do ano (acho, pela frequência dos meus posts), e não pretendia falar tão cedo deste livro, por causa do mal-estar... É um livro jornalístico, que fala de histórias ocorridas no hospício de Barbacena, maior hospício do Brasil, conhecido como Colônia, e a história do próprio. Várias histórias contadas pela Jornalista Daniela Arbex, estão vivas na minha memória. Para lá mandavam todos os que se tornaram incômodos na sociedade, cerca de 70% não tinham diagnóstico mental. O título é perfeito! Largavam as pessoas nuas, em pleno inverno, na Serra da Mantiqueira, em Barbacena, a aquelas que morriam de frio ( e muitas morriam!), eram vendidas para Universidades Federais e Estaduais para utilização em cursos de medicina. Meninas que engravidavam iam pra lá; esposas que o marido trocara pelas suas amantes, tornavam-se incovenientes; estupros aconteciam livremente. E o Estado deixou isso acontecer até o final do século XX. O Hospício foi denunciado várias vezes, especialmente do 60-70, quando este atingiu um grande número de pacientes. As pessoas, se não iam embora prontamente, se acostumavam (como assim?) com o que acontecia por lá.  Lembro de um trecho onde uma enfermeira recém contratada foi chamada para aprender a dar choques, faziam em vários pacientes "afim de aperfeiçoar" a técnica. Ela não conseguiu ficar... Enfim, perdi a respiração só de falar desse livro que me causou tamanho incômodo. Uma observação: livros me fazer sentir muito mais que filmes, haja imaginação!
Aí vai um resumo da editora

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Deu no New York Times

Pretendia falar de outro livro, mas quando fui olhar na estante, vi este daqui. O outro fica pra um próximo post. Eu li esse livro há anos atrás, e gostei muito. É de 2008, e traz reportagens publicadas por Larry Rohter, um correspondente americano no Brasil. Além das reportagens, traz também algumas considerações do autor sobre elas e do momento vivido pelo Brasil na época. Fala sobre aspectos da cultura, sociedade, amazônia, ciência/economia e política. E foram essas reportagens que me fizeram escolher escrever sobre esse livro neste momento no nosso país. São momentos de eleições, e boa parte das reportagens políticas foi feita entre 2002 até 2006, ano em que o PT ganhou as eleições... e ganhou mais um mandato em 2006. Li essas reportagens e os comentários novamente e muitas poderiam ter sido escritas hoje. Falam sobre o poder de São Paulo nas eleições, a ascensão da classe trabalhadora ao poder e escândalos no poder. Confirmo a minha tese que o poder continua o mesmo "desde os tempos de Cabral...", infelizmente...
Vai ai o livro e resumo da editora:

"Deu no New York Times" (Objetiva, 2008) é fruto das experiências vividas pelo correspondente norte-americano Larry Rohter durante quase 40 anos passados no Brasil. Enviado do "The New York Times" ao país entre 1999 e 2007, o jornalista já havia desempenhado a mesma função no final da década de 70 e no começo dos anos 80 na revista "Newsweek" e no jornal "The Washington Post".
Ao longo de todos esses anos, cruzou o Brasil entrevistando de presidentes a anônimos. Só pelo jornal nova-iorquino, publicou mais de 500 reportagens.
Este livro reúne textos inéditos nos quais Rohter analisa o país sob a ótica singular de um jornalista experiente e profundo conhecedor da nossa nação, escrevendo para o diário mais importante do mundo tratando de política, cultura, meio ambiente, raça, entre outros temas.
Retrato do país que passa muito longe do Brasil "para gringo ver", o volume traz ainda algumas das melhores reportagens do correspondente sobre o Brasil.

sábado, 1 de novembro de 2014

Yolanda

Depois de inenarráveis acontecimentos na minha vida, senti vontade de escrever mais um post aqui. Uma amiga me emprestou o livro Yolanda, de Antônio Bivar. Até aquele momento, eu tinha uma vaga idéia de quem era Yolanda. Comecei a ler o livro e, nos primeiros capítulos, me perguntei o por quê que eu estava lendo uma biografia de uma personagem da elite paulistana no começo do século XX? Aquilo fazia sentido pra mim? Mas continuei, porque acreditava nesta minha amiga. No decorrer da leitura, fiquei surpreendentemente maravilhada com a personalidade de Yolanda Penteado  e sua participação na história cultural brasileira. O livro mostra também aspectos de personalidades que a acompanharam em sua vida, como Santos Dumond e Assis Chateaubriand. Fala sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 e outros atos históricos da época. Yolanda se casou com Ciccillo Matarazzo, os dois doaram uma coleção de arte digníssima para o Museu de Arte Moderna de São Paulo, que mais tarde viria a se tornar o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Ela foi uma das grandes responsáveis pelo sucesso da II Bienal, em 1953. Foi fascinante viajar na elite paulistana daquele tempo, nessa personalidade incrível, com toda a cultura na qual o mundo estava embebido no início desse ilustre século XX.
Segue o resumo da editora (que não me atraiu...)


Com uma escrita envolvente, na qual predominam a emoção e o tom poético, o dramaturgo e escritor Antonio Bivar apresenta uma personagem fascinante: Yolanda de Ataliba Nogueira Penteado. Ao reconstituir neste livro a vida agitada dassa descendente em linha direta dos primeiros povoadores de nossa terra, eclética nas suas atividades e na eficiência - como empresária agrícola, dotada de visão clara das questões da produtividade rural, e como protetora das artes -, o autor oferece à cidade de São Paulo um momento ímpar para o resgate de sua memória.

terça-feira, 16 de julho de 2013

As intermitências da morte

Bem, já sabia que isto iria acontecer... não tenho paciência com blogs... já matei meia dúzia, mas este pra mim tem um significado diferente. Mesmo que as postagens demorem (bastante... rsrsrs), um dia elas saem, e tudo bem!! Hoje eu escolhi escrever sobre um livro que li há algum tempo atrás, mas que tem surgido na minha mente por diversas vezes desde a morte do meu pai, há quase três anos. O livro chama "As intermitências da morte", de José Saramago. Gosto da escrita desse autor, e achei formidável a maneira que ele escolheu de mostrar a face da morte. A única coisa certa na vida é a morte, e apesar de bastante doída, precisa existir, e o autor mostra de um modo muito único a essencialidade dela. E é ela! Caprichosa que só! Ai vai o resumo da editora:


"Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto", escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura.
Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.
Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder "passar desta para melhor". Os empresários do serviço funerário se vêem "brutalmente desprovidos da sua matéria-prima". Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja".
Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?
Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta "ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte". É o que basta para Saramago, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.

sábado, 28 de julho de 2012

A arte de produzir efeito sem causa

     Foi difícil escolher com qual livro eu começaria a postar nesse blog, mas finalmente decidi! Escolhi o livro "A arte de produzir efeito sem causa" de Lourenço Mutarelli. E por quê? Bem, porque este livro surgiu na minha vida de um maneira diferente dos demais. Minhas experiências em escolhas aleatórias e sem qualquer indicação invariavelmente fracassam, mas esta foi bem sucedida.
     Um belo dia eu quis testar novos autores brasileiros, e me deparei com o nome desse autor, que vinha se destacando. Um dos prêmios que ele ganhou por este livro, foi o prêmio Portugal Telecom de Literatura. Pensei então:"Hum, um prêmio! Um prêmio quer dizer alguma coisa!" Li mais um pouco sobre o autor e descobri que ele era também autor de "O cheiro do ralo", um filme com Selton Melo.    Esse filme, aliás, é bastante interessante, e traduz o espírito de Lourenço. Ah, para a escrita deste post descobri que o livro homônimo do mesmo, também será traduzido num filme, estrelado por Sandy (acreditem se quiser! E ela até que lembra a Bruna - personagem do livro - da minha imaginação, mas acho que a Alice Braga ficaria melhor!), Antônio Fagundes e Fábio Assunção.
    Enfim, voltando ao livro… uma história cotidiana, mas com uma escrita frenética! Estilo tão  enlouquecido, que não conseguia parar de ler, em dois dias a leitura terminara, e olha que não costuma ser o tipo de literatura que me prende! E o mais engraçado, quando fui comentar sobre o livro com uma amiga, ela também o tinha lido, e tido a mesma sensação, impossível parar!
      Ai vai o resuminho da editora para quem se interessar:




    "Depois de largar o emprego e a mulher, por motivos que guardam uma infeliz coincidência, Júnior volta para a casa do pai. Sem dinheiro nem perspectivas, seus dias se dividem entre o velho sofá da sala transformado em cama, o bar onde bebe com desocupados e as conversas com a jovem e atraente inquilina do pai, Bruna, que ambos espiam através de um furo no armário. A pasmaceira só é interrompida quando começam a chegar pelo correio pacotes anônimos com recortes de notícias velhas, em inglês - uma delas sobre o episódio em que o escritor William Burroughs matou a mulher acidentalmente.
     Enquanto se entrega a reminiscências e persegue objetivos pequenos e imediatos - a próxima refeição, o resgate de uma dívida com o antigo chefe, o dinheiro para o próximo cigarro -, Júnior começa a roer a corda que separa sanidade e loucura, e dá passos numa espiral aterradora que engole todos que o cercam. 
   O tom sombrio e opressivo dos outros livros de Mutarelli aparece aqui novamente, remetendo a influências confessas como Kafka e Dostoiévski. A ele somam-se o tédio e o vazio em meio aos quais os personagens se arrastam, num cotidiano marcado por obsessões sexuais e por um cenário típico da baixa classe média brasileira.    
   Confrontado com uma espécie de afasia, incapaz de confiar na própria linguagem, invadido por associações livres e imagens sombrias, Júnior tenta relembrar seus últimos dias e avaliar os motivos que puseram fim a seu casamento. Mas tudo o que consegue é uma leitura muito particular do que acontece à sua volta, amparada em imagens misteriosas que Mutarelli acrescenta ao romance.    
    Mais do que um retrato de uma sociedade hostil, em que é preciso escolher entre a adaptação estupidificante e o alheamento auto-destrutivo,A arte de produzir efeito sem causa é um mergulho na consciência individual, um universo que depende de muito pouco para revelar seus limites e abismos."

For today: "That's all folks!"